quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A porta

Ele tentou abrir a porta, mas estava trancada. Foi olhar no bolso e cadê as chaves? Elas não estavam lá. Tocou a campanhia, mas ninguém atendeu. Apertou mais uma vez, nada. Ligou na sua casa, tu....tu.....tu...tu...tu, nada. Apertou novamente,nada. Até que sentou no chão e deixou seus dedos ficarem tocando em vão. Encostou a cabeça e tentou dormir, mas pelo visto nada estava dando certo. Só tentativas mal sucedidas.
Só de pensar que era somente uma porta, fina, feita de madeira pobre e de um branco azedo que o separava da sua cama, do seu conforto, do seu chuveiro e da geladeira cheia de leite. Era uma porta que o separava do seu mundo. Nunca tinha imaginado ficar para fora, nunca tinha pensado que um dia poderia não mais entrar.
Seus dedos, agora desesperados, tocavam com tanta força que vermelhos, quase gritam de dor. Pensou em arrombar, mas sabia que não tinha dinheiro pra arrumar e sabia que ela ficaria intensamente furiosa. Seria invasão de domicílio? Bobagens...
Por um momento achou que fosse maldade dela, mas pensou também que seria impossível ela não ter escutando a companhia ainda.
Queria ligar pra ela, dizer que estava cansado de esperar pra ela abrir a porta, dizer que tudo o que ele pensa na vida é em faze-la feliz, mas que as vezes ele tem bobeirisse, culpa dos amigos.
Que a campainha não é só o alarde de seu coração, e que ele realmente a ama.
De repente, a porta abre. Já eram 7:30 da manhã. Ela olha pra ele, ele olha pra ela.
- Você não se cansa de bater?
- Ele ainda está ai?
- Ele mora aqui.
- Ele pode morar nas minhas coisas, pode ter as chaves, eu não ligo...
- Então porque está aqui?
- Porque foi eu quem construiu essa porta e por mais que eu encontre-a fechada, ela sabe que sou eu quem a ama de verdade.

domingo, 23 de agosto de 2009

Enfim, 21!


21 palavras
21 sorrisos
21 amores
21 amigos

21 baladas
21 doses
21 cantadas
21 poses

21 fios brancos
21 histórias
21 solavancos
21 vitórias

21 estados
21 sonhos
21 passos
21 anos!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Diálogo

Na madrugada de sábado, antes do sol nascer e depois que a lua se retirou, bêbada e perdida, sozinha e sentada na beira de um lago. Senta ao seu lado um pombo cinza. Os dois estavam cansados demais pra se perceber, olhando laconicamente pro nada em sua frente, ela diz:
- Você é sujo!
Ele retruca no mesmo tom ecoante e preguiçoso:
- Você é suja.
- Sua pena é nojenta!
- Sua pele é nojenta.
- Suas asas são manchadas e gordurosas!
- Sua alma é manchada e gordurosa.
- Pombo maldito, saia daqui se não quiser virar Yakissoba!
Ele voou e ela ficou.
Ela olhou pro espelho d'água e não se viu mais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Papel em branco

Externizar meus pensamentos
limitados, limitados
numa caixinha A4 virtual
ilimitada, ilimitada.

Aos olhos de quem?
sépticos, céticos
que olham com desdém,
encanados, encantados.

Mas do que são feitos?
de trapos, tratos
de uma memória atemporal,
dialética, epilética.

Necessitam ou necessidade?
preciso, precioso
A mim, aqui, a viagem
coifeite, enfeite.

Um tanto diabético
Cardíaco e sintético
Confuso e difuso
Socrático, apático

Brincar nesta brancura
Esquecer de tecer a regra
Pensar no impossível
e fazer imaginar.

Agora que sou livre
posso dizer em composição:
Meus pensamentos são
minha doce loucura.


Ouvindo Le Tigre

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O filho, a viúva e a neta

O Filho
Durante três meses ele dormiu todas as noites agarrado a mão do querido enfermo. O ambiente cheirava a remédios e doenças, as pessoas fantasiadas de branco cuidavam e descuidavam de uma saúde valente, porém solitária numa guerra de microcombatentes. Nos seus olhos se via a tristeza caminhando ao lado da esperança, esta por sua vez rezando pra Santa Vida acudir as preces dos mesmos olhos. Os médicos calcularam os últimos minutos. A terrível espera pelo último suspiro e o cheiro da morte desencadearam uma série de lágrimas e desespero:a última respiração.


A Viúva
Muitos anos a dois se tornam uma unidade. Já sabia da fatalidade, mas nunca se quer acreditar. Não havia cena mais triste que vê-la debruçada no caixão aos prantos gritando pelo seu velhinho, gemendo palavras de consolo que não consolam, esperando abrir os olhos e acordar de um pesadelo ou atirar sua vida na janela e deitar-se ali esperando que seus filhos não sofressem. Questionar Deus parecia tão pertinente, por mais que a fé fosse a única medicina a se recorrer.Impossível não sentir dor, impossível não vermelhar o rosto e sentir queimar as lágrimas entre as rugas, manifestações de um amor.Impossível.

A Neta
Vê-lo doente de cama já foi um choque. Homem respeitado e viril. De honra ilibada e notória, sempre forte. E agora, fraco me olhando com suplício, olhar esse que eu nunca mais vou esquecer. E agora...ver minha querida avó sofrer nos meus braços e eu a beijar suas lágrimas tremula de dor. Dor essa que eu nunca senti, dor essa que vai apunhalando o peito e o estomago como se corroesse o coração, como se toda a maldade me atormentasse, dor que não cabia em mim. Pior é ver que essa dor era como se fosse epidemia, todo mundo em prantos. Um cenário mórbido e torturante. Só de pensar que a terra iria cobrir o seu rosto negro, só de pensar que os dias dos pais seriam flores no sepulcro ao invés de camisas e meias, só de pensar que o almoço no domingo teria uma cadeira vazia. A procissão de pessoas em rezas e uma família unida pela dor, resta-nos a consolação de poder viver na lembrança das coisas boas.




Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...
Querido avô, descanse em paz.

Haikai

O médico na multidão
Sua roupa branca
cura minha visão.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Coração enraizado

De uma conversa no ponto...


O meu coração não tem nome próprio
Chama-se: Busca pela eternidade
Porque o eterno é nominal
e o nosso nome é a única certeza
em palavras singulares.

Eu sou o que eu amo
E eu amo o conhecer
O anseio pelo novo é a manivela de minha’lma
da minha sa-be-do-ri-a.

Porém, poucas coisas criam raízes no meu coração
Sinto que a semente foi plantada, mas 
Poucas se agarraram as paredes deste músculo sem sufocá-lo
e acompanham as batidas frenéticas do TUM DUM...

Poucas conseguem se alimentar deste coração vadio e só,
De sangue impuro e grosso
vermelho como a vida que quer lembrar a fatalidade.

Cavidades invertidas
Sentimentos divididos
Simplesmente i-no-mi-na-do
procurando suas raízes
procurando florir.


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Seja bem vindo ao meu lar

Será que alguém estará me vigiando? Se estiver, se apresente. Puxe uma cadeira e vamos conversar. Conte-me o que está vendo e o que quer de mim e não me deixe falar sozinha. Queira-me como bem me quer e não destrua as pétalas que eu lhe atribuir. Eu só quero sorrir. Numa nuvem de verão, as dançarinas encantadas nas águas, dizem que vc está atrás de mim. Em quem acreditar? No meu sentido ou nos meus olhos? Será o vão livre da solidão cobertor dos meus dias de frio? Será que será. Abriu a história bem contada, vamos escutar, venha se lhe sentir feliz. À você, o meu ser. Será. Seja bem vindo ao meu lar.

ao som de:
No baú vai ser achado
A sua estrela renascerá
A janela tá aberta
A casa é sua, pode morar
Me falta alguém
Falta alguém trazer prazer
Durmo sempre no meu quarto sozinho
Esperando você chegar
A janela tá aberta
A casa é sua, pode morar
Pode também morar
Os dias vão me mostrando o que sei
Mas não quero acreditar
Não tenho sentimentos nem hora
Agora nada mais importa
Se nada me acalmar
Nada mais vai importar
Baú-Mombojo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Rotina de sorrisos

No ponto ela deu o sinal. Entrou no ônibus. Seu cansaço estava visível e seus olhos só pensavam na hora de ver sua cama. No entanto, atrás do banco alto estava uma barbicha bem feita e um cabelo pretinho desarrumado e os olhos eram: Fascinantes! Ela sentou-se no último banco para observá-lo. Não esquecia o olhar, aqueles olhos penetrantes e grandes. Viajou! Até que seu ponto estava se aproximando. Levantou-se, sentou-se do lado, cutucou-o e disse: "Seus olhos são muito bonitos." E nesta hora olhou fixamente,  viu que eram muito mais belos do que pensava, quando se olhava no fundo da retina. "eles parecem... como ja-bo-ti-cabas quase maduras". Ele sorriu dizendo: "Obrigado!". Ela levantou, deu o sinal e não parava de sorrir. Pensou: " Meu Deus! que tipo de gente faz isso? Acho que sou maluca...", neste dia dormiu feliz.

No outro dia, na mesma rotina entrou no vagão do metrô. Seus cabelos estavam cansados e sua expressão de seriedade dizia as pessoas que...Olhou o cabeludo na sua frente. Ele estava escrevendo. Pensou: "Nossa que legal, quantas vezes eu fiz isso, escrever do nada sobre alguma coisa que não se pode perder."Queria ir sentar-se do lado dele e dizer "nossa, essa frase é incrível", mas seria muita loucura. Perdeu-se nos pensamentos. Logo ele levanta, senta no banco de trás e a cutuca dizendo: "Parece estranho, mas isso é pra você, espero que leia e goste. Hoje eu estava muito triste, mas você me deu inspiração". Ela olhou estonteada e incrédula, mas ao mesmo tempo tomada de uma felicidade discrente. Ele desceu e ela ficou a ler, não conseguia parar de sorrir. Neste dia ela dormiu mais feliz.

Todo mundo pode fazer felicidade, basta fazer p.arte das pessoas que nem conhecemos, basta ser mais sensível, basta dar mais amor. Sem temer, sem pensar no que pode vir, sem ser sacana. É preciso resgatar a pureza dos elogios, por menos puros que possam ser. É preciso sermos mais próximos e libertar os desejos e pensamentos. Sem maldade, sem malícia ou preponderância. São apenas elogios que sentimos ou sentimentos que devem ser elogiados. Tornar isso uma rotina gostosa, uma rotina de sorrisos...