quinta-feira, 8 de abril de 2010

Uma coincidência, um incidente

É certo como as coincidências estão presentes e como não se explica seu magnetismo, acredito que daí que nasce o tempero, da não explicação e da incitação.

Eu saí pra comprar uma água. Uma hora atrás eu diria que compraria uma cerveja, mas naquela hora eu tinha cede de pureza. O balcão estava lotado, mas o barman era um velho conhecido, dos dias de má-época. A respiração dele arranhava meu pescoço acariciando meus cabelos. Eu olhei pra trás e vi que os seus dentes eram perfeitos. Ele se desculpou, disse que estava apertado e que as pessoas, nestas situações, acreditam que dois corpos ocupam o mesmo espaço. Disse-lhe que não tinha autoridade para falar de física social em páginas sem linhas e em diálogos fast-food. E ele me questionou a totalidade das relações de poder para determinar quem tem prestígio de decidir.E assim foi.

Uma certa antipatia ou carinho foi criado ali, semelhança alguma no gosto ou posto. Não haviam paridades, opinião uníssona ou ligação ancestral. Éramos totalmente diferentes, antagônicos, opostos, distintos, etc.

Eu perguntei a ele, se realmente queria continuar aquele diálogo, porque os batimentos cardíacos eram intensos e os ânimos eram impulsivos. Ele chegou muito perto e disse que não perdia seu tempo com conversas monótonas. Chegou muito mais perto. Eu encostei o nariz em seu ombro e disse: “Direi uma coisa. Eu sou romancista e acredito na terra dos romances prontos. Eu faço meus romances e os vivo. Seja viver nas páginas, seja fazer na vida.”. Ele me olhou com olhos de cristais e disse: “Eu nasci de um romance e num romance me fiz, escrevo e vivo, vivo do que escrevo, porque a cada dia eu nasço de novo, me recrio. Hoje, aqui com você, eu remansci.” Beijou-me com beijo de europeu. Os olhos azuis não mentiram e a explicação para o sentimento sentido somente a música, porque era a mesma, disso eu sei. Ficou o silêncio, o sorriso e a coincidência.

Naquele dia eu vi que de tudo o que me faz pensar, de nada posso concluir.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Diálogo: No carro

Ele abriu a porta esquerda do carro, entrou, sentou e ligou o motor. Eu fiquei parada meio incrédula do outro lado, quando o vidro se abaixou e ele gritou: "Você não vai entrar?". Eu entrei.
Fiquei um pouco pensativa com isso e, assim, ele perguntou:
F: O que foi?
S: Nada.
F: Não, você está pensativa.Eu daria tudo para saber o que está pensando.
S: Quer comprar meus pensamentos?
F: Se estivessem à venda.
S: Por que não vender pensamentos aos curiosos? Pensar é intimidade, dividir pensamentos é dar intimidade.(silêncio). Qual a diferença entre vender pensamentos e vender o corpo, vender sexo?
F: Várias.
S: Ambos são íntimos, concorda?
F: Ehh.
S: E algo que ninguém pode retirar.
F: é, mas pode te obrigar a dar.
S: Sim, mas estamos falando de manifestação de vontade.
F: Hã.
S: Na verdade quando digo vender sexo, estou me referindo a moralidade e, conseqüentemente, à dignidade.  E a dignidade é algo que não se pode vender.
F: Por que você diz que vender sexo é vender dignidade? Se se faz algo por alguma necessidade ou motivo é digno. Sempre há dignidade quando há razões.
S: É verdade, mas para a sociedade, o sexo está atrelado ao moralismo, acho que pela educação religiosa presente, pois se você vende sexo, mesmo que seja motivado, mesmo que seja digno, ainda sim é imoral porque há outras formas de se obter alguma coisa, sempre há dois caminhos.
F: Neste ponto de vista sociológico.
S: Se pensarmos que o sexo é um ato do qual duas pessoas se aprofundam na intimidade a ponto de se introduzirem mutuamente formando uma ligação única que lhes proporciona prazer tão generoso, é porque há uma relação de confiança, certo?
F: É.
S: A mesma coisa o pensamento íntimo, que é algo somente meu ou somente seu. Quando eu começo a te dizer o que penso, estou te dando intimidade.
F: Você quer dizer que a partir do momento em que nós dividimos todos os pensamentos estamos fazendo sexo? (RS)
S: Por ai... (¬¬')
S: Tirando os casos de coação, todo mundo tem liberdade para fazer sexo com quem quer, na hora que quer da maneira que quer. É claro que se os dois quiserem, facilita um pouco. O pensamento também.
F: Então, vender pensamentos seria uma espécie de prostituição?
S: Os pensamentos íntimos sim. Se vender sexo em nossa cultura não é uma coisa aceita, porque vender pensamentos seria aceito, não seria indigno?
F: E os escritores? Autores e tais?
S: Eles não vendem seus pensamentos íntimos, eles vendem idéias. Pensamentos a que me refiro são os da intimidade, aqueles que só você pensa, e jamais fala pra alguém. A não ser que tenha procura... (rsrs)
F: Afe, você viaja.


(Stela e Fábio)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Eu me fiz assim

Eu me fiz mais mulher e hoje eu sou mais do pouco que fui. Eu me fiz mais sincera do que há tempo pensei que fosse e hoje sou mais. Eu me fiz assim e não me arrependo de voltar.
É bom evoluir, é bom crescer. Eu me fiz mais feliz pelo que me privei e agora senti.  Ainda bem que foi assim. Como gosto de ser o que tenho feito de mim!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Lamparinas barrigudas


Estava pensando no escuro e as lamparinas barrigudas desenfrearam a falar. Uma de um lado, a outra também, ao mesmo tempo, mas coisas diferentes. Eu gritei: "Meu ouvido não é pinico!", apontaram suas barrigas iluminadas para mim e continuaram. Bli bli bli, bla bla bla, não paravam , não paravam. Eu tentei não escutar, mas depois de um tempo foi impossível.  Algo sobre a Luzidéia, o filho da Iluminilda, a parenta do Luzidson, que é primo da Clarinete. Ahh também as idéias do Candeeiro, do pecado da Ilustrilde e outros que não me recordo.

De tanto ouvir as lamparinas barrigudas, meus pensamentos se foram e as idéias clarearam.

Foto: A avenida querida é Paulista!, 2005, P&B

quarta-feira, 10 de março de 2010

Divagações: o infinito, o ciclo e as bitucas


Eu ascendi mais um cigarro. Já se foram uns dois maços hoje e com isso meus pulmões também vão, como o verão em março, como o fluxo de um rio.
A ansiedade se acalmara, mas no fundo ainda estava aquele sentimento de euforia, que não passa com o tempo-agora, mas que só o tempo-depois resolve.
É de se notar a peculiaridade que paira sobre essa resolução, pois se apresenta no tempo como curado, mas que intimamente, onde o tempo não consegue se infiltrar, ainda está lá. Aquela brasa quente e inoperante, esperando um assopro pra incendiar. Insensível aos olhos humanos, mas notoriamente descoberto aos olhos dos olhos. Não se trata de uma “cura”, porque a doença é algo muito fisiológico que procura a razão, mas parece adequado didaticamente.
Não basta saber que sente. Em verdade, há sempre uma idéia de sentir e nunca um saber exato do sentimento, pelo menos sua dimensão é tão imensurável que as vezes se manifesta muito e as vezes, não. Proporcional ao quê? Eu não sei quais os critérios utilizados pelo... Pelo cérebro. Ou coração, se achar mais poético.
Sinto que esse sentimento seja infinito. Como as leis naturais, como a certeza da morte, como a certeza da dúvida, como os pensamentos. Mas resta saber quem é o infinito. Quem conflita com a razão, porque já a encontrou. O ciclo. Quem ou o que se esconde atrás das lentes do sentimentalismo.
Um retrato flácido, o desgosto adiado e o afoito do inesperado. Figuras típicas das horas que se conta na vida, figuras que entrelaçam as emoções e os prazeres como crochê, mas que no final não irão virar uma blusa, e sim um nada moral.
Há dois caminhos: seguir e prosseguir. Eu achei uma chave sem dentes, mas os outros também. O fato de a porta estar aberta, só aumenta a vontade de ascender outro cigarro. Ela estava aberta para um penhasco falso. Porque depois de cair, percebe-se que o sentido do penhasco era dar retorno ao infinito. Porque prosseguir? Porque não há opções mentais.
E as outras pessoas? O que elas fazem? Elas me deram diversos mecanismos para seguir em outras direções, mas no final, todos sabem descrever muito bem as sensações de pular.
O mesmo tempo que dura este cigarro a queimar, os mesmos milésimos de segundos que, se contados em câmera mais que lenta, purificam a doença, serão o tempo a durar a “neutralização” dos sentimentos, depois que passado o penhasco.
Ficam presos nas brasas e que muitas vezes, de tanto recalque, nunca mais virão a serem chamas. Por um lado é bom, porque adia pensamentos anti-mim-mesmo, mas por outro, só aumenta o penhasco próximo.
Deixar-se inserir um sentimento em seu ser, não é somente uma doença passageira. (Antes já digo que há patologias que fazem sorrir e outras que fazem chorar, eu me refiro as que se escolhe escolher.) É uma escolha feita para toda a vida, porque por mais que tenha apagado a fogueira, no miolo sempre sobrarão brasas, porque constituem o infinito, porque o infinito é tão perto quanto longe.
E o que eu faço com essas bitucas? Ou com os restos de sentimentos? Em um post anterior eu, mais feliz, fiz um mosaico. Agora, eu prefiro pensar que esse infinito cíclico é só mais uma brasa em expectativas do querer que cairão em suas essências, serão neutralizados pela dor da queda e ficarão armazenados em um cinzeiro, até que sejam resgatados, ou não.

Foto: "Cutuca a Bituca"; Shopping Frei Caneca; 2008.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mosaico do Amor

Se aquela casquinha de romance, foi tudo o que sobrou. E aquela velha ferida que não cicatrizou. Aquele restinho de amizade que já se perdeu. Os momentos felizes de paz no coração e as músicas de amor que embalaram os anos incríveis. O bolo de chocolate que murchou, a inocente paquera no jardim de infância, o beijo roubado!
Junte todos os caquinhos, os coloridos, transparentes, deformados e incandescentes, os que doeram e os que sorriram, os que foram e que ficaram, junte todos, todos, todos.
Pegue seus sentimentos mais puros e íntegros. Selecione os caquinhos mais bonitos e harmônicos, tudo com muito carinho. Pegue a cola essencial e cole-os, desenhando a vida, num mosaico do amor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Na janela há sereno

Porque na janela há sereno, tenso
Que não bebe,
da minha carne,
da minha alma,
do meu ser.

O calor que esquenta
as minhas veias, teias
tê-las perto de você, será.
Será?

Molho nos papéis os velhos olhos
cheios de molhos de água e sal.
Visto a lembrança que houve
como traje de um rei
atemporal.

E se fosse só o corpo
azedo e gástrico
ainda assim, o rolo
das cordas
do comboio.

o cheiro da grama
o caos dos meus dedos
a piscina de desejos
os morangos do tango.

A corrida no parque,
Um folheto de novas
rabiscadas na orelha,
ardem.

Porque há asas nas antenas
das idéias do passado
que passam, interpretado.

Porque dessa janela, já voaram
e fica minha carne,
minha alma
meu ser.


Um poema pra você.



Agora vamos falar de arte (RS)
Hoje fui assistir a uma exposição que vale muito a pena: Ocupação Chico Science.
é muita Arte! http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/
Não há o que falar desse caranguejo, beijo!
E como o manguebeat é um movimento
a minha frase manguegirl: É muito caos pra pouca lama!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ego

Como podemos ser tão egoístas a ponto de, em nossa dor, não pensar que nossas ações também machucam?


EGO, uma palavra tão pequena pra significar tanto. Todos temos respostas de acordo com as nossas idéias e conhecimento.
Na minha posição, não cabem egos no meu dia a dia.

Perguntei pro Daniel o que ele pensava quando lia a palavra ego, ele respondeu: "penso nos caras da escola politécnica da usp. Pessoas que se acham muito mais do que são, excessivamente orgulhosas. Geralmente, pessoas com o ego muito grande também são tão orgulhosas." - Daniel Maia Silveira ( http://danielmaiasilveira.blogspot.com/ )

Perguntei pro João o que era Ego pra ele: "o meu ego é o meu eu mais egoísta ;)" (http://jcotero.blogspot.com/ )

Para o Eduardo: "Ego é a manifestação de sentidos e sentimentos do eu, para o eu."

Para a Thainá: "Ego é a Beyoncé."

Para o Renan: "Aquele que faz." ( http://duasedez.blogspot.com/ )

Para Damaris: "Ego é a felicidade na Augusta."

Agumas pessoas não souberam me responder.
Deixo pras teorias o que a prática não consegue definir.

E para você?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pulando, pulando

Nesta noite eu sai pra pular. Depois de dois discos voadores, meus olhos já estavam alegres. Nas noites de carnaval, só se pensa: tudo pode, é carnaval! E o meu pensamento não estava diferente, afinal eu sabia o que vinha pelo ano. Meus amigos também não ajudaram, era uma competição de quem pulava mais. Minha mãe diz que isso não se chama de amigo, mas pra mim, era carnaval.

"Corta o cabelo dele, corta o cabelo dele!", dizia a marchinha. Eu juro que tentei todas as vezes imaginar quem seria o Zezé. Pensei no meu bicho deste ano, mas cortaram seu cabelo e nem era carnaval. Outra, não acho que ele seja, pelo menos não demonstra. Mas pra quê imaginar o Zezé? Olhei pro lado e comecei a imitar a pipoca.

A multidão inteira estava bêbada,não importava o que tinha bebido. É incrível como as pessoas são mais soltas depois de um destilado, umas cevadas, uma batida de vinho ou a do pancadão. Elas são mais verdadeiras e divertidas, como se o escudo caísse ao chão e, na mesma proporção, mais vulneráveis. Eu também estava lá, mas sempre me ficava um resquício de consciência que apontava: "Olha a dor de cabeça amanhã! Olha, sua mãe vai ficar triste! Olha onde você está!". Mas é tudo uma questão de abstração.

Comecei a pensar naquela (falsa) felicidade, na carência humana, nas relações, nos sentimentos, no homem, na mulher,nas amizades, nos amores, nos valores, na dignidade... Isso tudo durante a música do praieiro, guerreiro que não quer mais nada e esses pensamentos, eu pulei também.

Eu vi coisas que não devem ser vistas e fiz coisas que não imaginava que iria fazer. Se me perguntar o quê? Não poderia contar, pra poupar-lhes as vidas. Mesmo porque, essas coisas eu também pulei da minha memória.

Eu poderia ter pulado o carnaval da minha agenda, como fiz uns anos atrás, por ser radical com a moralidade e com a sanidade, mas render-se aos costumes mundanos não me fizeram menos do que sou.

Se foi o carnaval e meus pés estão cansados de tanto pular. Pulei meus olhos e ouvidos, pulei meus sentimentos e pensamentos, pulei meu coração. Só pra me distrair, só pra me divertir, só pra ser mais normal, só porque era carnaval.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Um par de Ingressos

Aos poucos leitores que acompanham o textos de Stela e Fábio, esse conta como eles se conheceram.





"Só me vem quando não há certeza, me diz conjuros pra pagar, beleza.Da incertidumbre das mesmas mãos que as suas. E me atinge da melhor maneira, como cânhamo ou cachaça certeira, pra antecipar a quarta-feira.Eu vou sair,talvez te encontrar, são cinco e meia da manhã...".
- Trrrrrriiim!
- Alou?
- Stela?
- Oi Kitti, e ai? vc vai?
- Não vou, sorry. Estou com dor de cabeça e nem conheço a banda.
- Ahh, estava aqui escutando o cd. Só conheço a mais famosa. Tudo bem, eu vou mesmo assim, já comprei os ingressos. Te vejo no ensaio, beijos.

Ela se arrumou e saiu. Estava quase na hora. Ir sozinha a um show, para os outros, seria estranho, mas pra ela não. Quase na porta, estava caminhando firme em direção a entrada, quando percebe que havia um rapaz se direcionando a ela. Pensou, será que ele está vendendo um disco da banda dele? Será que ele é do fã-clube? Será que ele precisa de 10 mango pra voltar pra casa?
- Oi, vc está sozinha?
- É, estou. - Ela pensou que ele iria rir da cara dela ou dizer que tinha medo de ficar sozinho, porque tem trauma de infância e os seus amigos queriam morrer.
- Já tem ingressos?
- Jaá.
- AH, porque eu tenho um a mais.
- ah!
- Cadê o seu?
- Tah aqui.
- vou vendê-lo.
Ele saiu em direção a fila de ingressos e depois voltou com o dinheiro. Ela ficou boquiaberta.
O show foi muito bom. Depois do show foram comer.Conversaram sobre arte, internet, música, arte, humanas e humanos, tv e esportes, complexidades e paradoxos. Eles conversaram sem emitir um som de suas bocas: diálogo mudo.
Os olhos diziam os desejos. As mãos eram pontes. No clímax do momento: um abraço!
O mundo não era o bastante. Um conhecimento, um momento, um prazer.
Ela voltou pra casa e ele também. Fábio não sabia o que estava acontecendo. Stela não sabia o que estava acontecendo, no entanto, ambos sentiam gostar.
No outro dia a vida retornou à normalidade e os dois voltaram a viver racional.