sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
A última gota
Foi o último pingo que caiu em mim
da goteira que era meu Ricardo.
Pingo gelado e transparente,
um pingo bem pingado.
E um dia foi o cojunto torrente
foi cachoeira, foi o mar inteiro
caindo da ribanceira,
dos nossos sonhos e do nosso calor.
Foi mera expectativa de um grande...
ahh.
Fechou a torneira, quem fechou?
Serviço mal feito, que ficou
Pingando em meu peito, por favor
Não molhe meu rosto
Não molhe meu rosto.
E pinga, pinga e pingas
Gotas de todos os gostos
Gostos de todas as gotas
Gotas de todas as grotas
Gotículas ridídiculas.
De dar gota.
Até que olhei no fundo do fundo
Ela se desprendeu vagarosamente
até o último fio e caiu
tão intensamente
com a força de sempre e sempre,
Só pude sorrir.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A gira cardíaca
Enquanto a água quente acariciava seu corpo, seus olhos fechados olhavam pros pensamentos de tudo o que acontecera no dia, como um filme retrospectivo diário. Olhou fundo pra si mesma e sentiu alguma coisa errada em seu coração. Um zumbido estranho começou a gritar em seus ouvidos. Levou as mãos a cabeça e Ai, seu corpo começou a contorcer, sua boca a soltar pequenos gemidos e depois berros de dor e suas mãos em seu peito e um barulho maquinal oriundo do seu coração e a respiração ofegante e ofegante e não respirou. Agarrou as paredes que tentaram lhe dar as mãos, mas caiu antes, se jogou e cansou de sofrer.
Pensou que tinha morrido, mas não. Pôs a mão no peito e voltou a respirar. Profundo e intenso. Coisas do coração. Mais tarde eu soube que naquele dia, o seu coração tinha girado 180 graus, inversão. A cavidade esquerda virou a direita e assim o contrario. Seu coração mudou de posição. Alguns dizem que é por causa dos genes alienígenas, outros dizem que é porque se ama demais. Alguns falam que o coração, por ter vida, fica cansado de trabalhar na mesma coisa, outros dizem que isso é coisa de bruxaria da boa. "A gira cardíaca", chamam os médicos impressionados. Ela se sentiu diferente depois daquele dia e seu batimentos também trocaram de lugar. Agora o seu coração bate ao contrário, livre da escravidão dos sentimentos inacabados...
Esse texto não é exatamente novo, escrevi em algum mês deste ano, não sei. O achei perdido nas minhas memórias e resolvi resgatá-lo. Imagine ter o coração a mecânica de uma roda, como já dizia o Mestre Caeiro, esse comboio de corda...
domingo, 28 de novembro de 2010
A velha macieira
domingo, 7 de novembro de 2010
Entre nós
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Sensibilidade
domingo, 31 de outubro de 2010
Do querer e da miopia
O mundo é mesmo muito estranho, na verdade, as pessoas é que são.
Cada dia que passa eu me sinto menos a vontade no mundo e cada vez mais estranha.
Tenho observado a dinâmica de fatos que aconteceram em minha vida nestes últimos períodos e vejo que quanto mais envelheço, menos sei tomar decisões. Já me disseram que é porque penso demais. Pode ser.
Como eu digo "eu te quero" à alguém? Poderiam me dizer: "dizendo". Mas seria fácil se não houvesse outros fatores que precedem as palavras. Como eliminar a insegurança? (Nota-se que aqui não se trata daqueles casos em que há a exteriorização dos sentimentos e sim um relacionamento nublado)Como eliminar as certezas que se voltam negativamente para esta decisão? Racionalmente falando, é o mesmo que apostar em um cavalo trípede.
Fora o orgulho de não aceitar que não é o bastante, o egoísmo nunca aceita uma rejeição.
Da mesma forma, como dizer "eu não te quero" sem magoar alguém que te quer?
É péssimo.
II
Comprei um óculos. Não porque quero ser legal, mas porque não vejo mais as formas de longe. Eu sei o que elas são, reconheço suas cores, mas não seus detalhes. Achei que podia conviver com isso, até o dia em que não pude ler e ter uma opinião. Até hoje não a tenho e nunca mais terei a oportunidade.
No fundo, eu sei que esta miopia é muito mais extensa do que os meus olhos podem entrever. Realmente eu vejo muito nítido o que está em minha volta, mas a nitidez não importa para aquilo que está longe? Como pude viver míope para aquilo que eu não consigo tocar, posto estar longe. Acho que neste mundo, principalmente neste país, estamos todos míopes. Eu coloquei óculos em meus olhos e vejo um mundo muito mais claro e poluído. Mas não sei onde encontrar óculos para curar esse distúbio socio-visual. A conscicência parece que não ter orelhas nem nariz, como sustentar as hastes e a lente?
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Seu reflexo
Não sou de plástico ou acrílico. Não sou líquido e fluído. Não sou de bambu ou chita. Não sou dourada ou purpurina, eu não sou só menina. Não sou de clorofila, não sou de algodão. Não. Eu sou de carne e osso, talvez mais osso, mas também carne. Eu sou tato e olfato, te cheiro e te olho. Eu sou seu oposto, seu rosto, o seu gosto. Eu sou você invertido, seu verso desinibido. Eu sou seus trejeitos, seus defeitos e afetos. Sou pureza, a certeza de querer. Sou sua imagem, seu espelho, sou seu reflexo. Eu não sou transparente, eu sou você.
Ouvindo Lenine e procurando meus porquês.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Se sinto, sorrio.
Não há nada mais importante do que ganhar um sorriso daquele que sabe a importância de dá-lo. Talvez haja coisas mais importantes, mas não mais do que naquele momento que se recebe. E o que é o sorriso senão a boca aberta em fenda iluminada pela luz dos dentes. Disseram: É muito mais! E eu sei, mas não consigo explicar em palavras. E não há nada mais importante do que ficar sem palavras para aqueles que sabem a importância de proferi-las. Talvez haja coisa mais importante, mas não naquele momento que se emudece. E o que são palavras senão um conjunto de letras coladas pela língua (que as lambe). Disseram: É muito mais! E eu sei, novamente, mas não consigo explicar em sentimento. E não há nada mais importante que o sentimento daqueles que sabem a importância de se sentir. Talvez haja coisas mais importantes do que o sentimento (o que duvido), mas não mais do que naquele momento em que se sente. E o que é o sentimento senão o porquê de emudecer e sorrir...
Agradeço aos sorrisos que tenho recebido, seja do meus amigos ou desconhecidos, seja daqueles que admiro, seja da criança adocicada, seja do homem amadurecido.
Não há o que dizer, só o que sentir. Se sinto, sorrio.
Sorriso você.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Aos Ricardos e Reis

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
firme contigo, sofrerás avaro
De penas.
Ricardo Reis
Eu amei um Ricardo
e pelo visto ainda amo.
Amei-o por dentro,
por palavras e canto.
Um suposto sentimento
de afago e tanto
que há dele em meu peito.
Eu amei um Rei
e pelo visto tanto amava
Desconhecido que sei
em mim se encontrava.
Um suposto de dentro
sentindo-me e sendo (em nós)
o que em mim tem feito.
Nayara Oliveira
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Ao poeta passarinho
Arrancou-me as pétalas passarinho!
Mas as minhas sementes é que deveriam.
Não foram simples cócegas,
foram dores
e minhas cores.
O que faço com esse verde pálido?!
O que faço com esse tronco pelado?!
Não ganharei mais cantadas e melodias
Não alimentarei os teus rivais.
Arrancou-me o coração passarinho!
Mas os meus poemas é que deveriam.
Não foram simples palavras,
foram dores
de amores (passados).
O que faço com essas letras perdidas?!
O que faço com esse sorriso repentino?!
Esperarei a doce primavera e poesias
Bela, não serei uma flor a mais.
Dedico este poema aos meus poetas
E se você que está lendo assim se considera
Te dedico!
