domingo, 4 de julho de 2010

Poesia pra ir


Como quem anda a olhos cegos
pelos passos de linhas tortas,
que despidos procuram o reto
por espasmos entre-portas.

O cabelo consome o vento
como o desejo consome a ida.
Meu caminho persegue o intento
de curar a vida tolhida.

Sou eu que vou a ti
com armas de cortar atrito
com flores de cheirar bonito
com lágrimas que não senti.

Sou eu chegando em ti
pra acariciar teu gênio forte
pra me deitar e dar suporte
pra sustentar o que menti.

E de quem chega à peças fracas
Por seguir a estrela D'alma,
olhei na fenda da brisa larga
e vi seus olhos em minha palma.

Eu fui e te vi aqui
Você já estava lá
Amanhã comigo.
Ontem, agora
em todo lugar.




Foto: "To chegando", Série "ComCentro", Santos, 2010.

sábado, 26 de junho de 2010

Poeminha


Meu amor é poesia
e só a poesia
um papel.
não há pulsação, não há coração.
Só há poesia, melancolia
e um teatro de letras.






Foto: "Olhe pro lado", 2010, Santos

domingo, 13 de junho de 2010

Das fases


A percepção

Escutei as reclamações de dentro
e protegi as palavras do vento.
Tudo para que os queridos faltosos
não dessem com efeitos supostos

Mas a vida é tão previsível,
que fingi não acontecer o acontecido
e do humano, o imperceptível.
Tapei os olhos e fechei os ouvidos

A insanidade

Calei-me pelos segundos tortuosos
e escutei o ranger dos meus batimentos,
antes fosse pelos olhos virtuosos
que seriam formas do renascimento.

Mas as batidas careciam de ar,
tomados pelo molesto torpor
procedido dos olhos negros
que causaram tanta dor.

-Atira-o à morte! Eles me disseram.
-Como mato um sentimento?
-Enfia a faca e torce
como um só juramento.

Crendices

Mas jurei não sentir outro igual,
uma jura com toda incerteza.
Porque em verdade sou mortal
e quebrá-la não seria surpresa

E se de fato eu tiver que escutar
e arrancá-lo de meu peito?
O que sobraria em seu lugar?
Senão o vazio de seu leito.

A questão

Oh dúvida que paira pelo poema.
O que as palavras fariam em meu lugar?
Se o arranco de mim, sem mim vou ficar,
se o mato em mim, a mim vou matar?

O sentimento é meu,
E eu sou do sentimento.


Eu fiz figa pra não tê-lo.
E agora o sinto como propriedade.
Credo em cruz que maldade!
Mas em mim não agüento retê-lo.

A falsa paz

Peguei duas rezas e apertei as mãos.
Pedi ao tempo aquela calmaria.
Caiu as lágrimas de quem acredita.
Segurei o soluço do coração.

Respirei profunda a convicção
e abri os olhos e destapei os ouvidos.
Meus batimentos não mais eram sentidos
e o conformismo me deu as mãos.

Fui lá fora sentir
e mentir que eu não sinto.
Deixa o tempo vir matar
o que não mato e finjo.

A Dor

Foto: "Leia-me", Nayara Oliveira, 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A liberdade do sentimento e a escravidão do pensar


Você pode sentir o frio, você pode sentir o calor, você pode sentir a poesia em seus lábios, o vento tapear seu rosto e sentir saudades da brisa do mar, porque é livre junto com o mundo. Você pode voar a bordo de um pequeno coração alado. Pode fazer o que bem entender da vida e pode escolher para onde seus olhos irão direcionar. Mas a liberdade tem um custo: a escravidão dos pensamentos.

Ficam retidos na lembrança, limitados no pensamento do pensamento, acondicionados na memória remota das coisas que foram importantes, mas que não foram notadas, como a maneira que a mulher grávida te olhou ou o porquê daquela pessoa estranha te defender, sem saber qual sua cor favorita. Seu pensamento não te acompanha, fica matutando o que já foi pensado, fica decifrando o código que não tem lógica, fica a racionalizar o coração.

Controlamos nossas escolhas? Qual liberdade é mais importante: a do sentir ou a do pensar? Ou as duas são a mesma em máscaras diferentes que se apresentam em carnavais distintos? O fato é que pensamos que podemos sentir, quando na verdade já sentimos involuntariamente ou sentimos quando podemos, mas na verdade já pensamos antes de poder.

Meu sentimento é livre, mas meus pensamentos não. Sigo em busca de alforria ou de outra escravidão.


Foto: "Tic", 2009, em uma rua de S2P

terça-feira, 1 de junho de 2010

O domingo de romance

Eu não entendi muito bem porque ela estava falando da diferença entre o sentimentalismo convincente e o realismo sentimental. Pra mim, aquelas palavras não faziam o menor sentido. No entanto, eu olhava aqueles olhos castanhos perfeitamente alinhados, os cabelos médios repicados de leve, que vinham até metade do seio milimetricamente desenhado, a boca carnuda desidratada, as coxas grossas, porém pareadas, os dedos retinhos, o cheiro de alfazema, um corpo genial.

Mal podia eu pensar que estaria com ela assim,nos meus braços. O ônibus balançava muito e era uma ótima oportunidade para mostrar que ela podia se apoiar em mim.
Foram apenas alguns minutos e meu pensamento a tratava com toda eternidade de sentimento. Eu queria casar com ela. Sim, naquele instante era a mulher da minha vida. A luz do sol refletida em seu semblante me mostrava que não havia outra alternativa. Eu a amava diferente do que já amei.


Eu sabia que ele não estava prestando atenção no que eu estava falando e que não tirava os olhos dos meus seios. É, os homens tem essa feia mania,mas se eu fosse me ofender com tudo... Eu me sentia tão sozinha e ele apareceu tão disposto. Disposto a quê? Só podia ser sexo, como todos. Mas era diferente. Eu vi, quando me abraçou, figindo me segurar, tirando uma casquinha do meu perfume. Confesso que me senti segura e o cheiro másculo de seu pescoço me incentivava a continuar.

Não sabia exatamente onde ele estava me levando. Não sei como confiei em alguém que há pouco conhecia, mas tudo era tão vivaz e o meu sentimento de vivências, me fazia destemida. Paramos em um lugar muito grande e esverdeado. Já sabia onde eu estava, em um belo horquidário. Vimos pássaros e árvores e o ar puro de sentimentos não tão puros assim.


Ela ficou feliz em ver as orquídeas. Toda mulher gosta de rosas e orquídeas. Sei que ficou impressionada quando eu peguei um ramo e acariciei seu rosto. De olhos fechados, ela dizia que eu estava quebrando a barreira que toda mulher impõe. Ela tinha que ser minha.

Ele pegou em minhas mãos.

Ela ficou apreensiva, senti. Fui chegando perto.

Ele foi se aproximando, aproximando. Até que me beijou.

Então eu a beijei. Não aguentei. E fui beijado de volta.

Não resisti. Tive que beijá-lo também.


Até que o sol se pôs. Tarde Linda, linda tarde. Estavamos felizes e tristes. O dia acabou. Apertamos as mãos, nos abraçamos e fomos embora. Sem nunca mais se ver, sem nunca mais se ter. Sentindo a intensidade de um romance de um dia, mas sentindo a frieza de um romance moderno. Os domingos nunca serão mais os mesmos.


Quem é ela? Eu não sei.
Quem é ele? EU não sei.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Conversa de saltos batidos

"Veja você, como é que tudo foi chegar assim? Eu sei que está tudo uma loucura e que as pessoas adoram complicar o ponto de vista. Eu vi, a gente só queria um amor quando ele apareceu a gente não quer mais. E o que fazer com os restos, vamos levando entre uma balada aqui, um cigarro ali, um sexo ai...nos acostumando a ser Clarice Lispector. Deus parece as vezes se esquecer, tá não falo mais isso, nem você. Vejo eu, não sei porque eles se comportam assim e fica pior pra você que está longe de mim ou melhor, eu não sei. Aqui também não está fácil os pensamentos são frenéticos, mas as vontades covardes sabe como é: pensa que faça, mas não faça o que pensa. É, mas estamos aqui. Façamos..."

Tá bom, sei que o nosso lema de amanhã será "José na minha teia".

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Não basta


Uma chama acesa na fogueira:
o fogo não basta para queimar.

Uma luz no fundo e o sol nascido:
a claridade não basta para enxergar.

A chuva torrente e o mar profundo:
a água não basta para saciar.

A terra batida e os pés descalços:
a energia não basta para sentir.

A fotossíntese e o ar que respiro:
o oxigênio não basta para respirar.

A simplicidade não basta
o saber também.
Dessa realidade tão vasta
alheia ao aquém.

Uma vida não basta,
ao que a felicidade detém
e o que o homem afasta
o passado retém.

E na mesma palavra
de imaginação tão casta
a amplitude de um poema
por si só, não basta.

Tudo é muito mais do que realmente é
e muito menos do que pensamos ser.
Eu por mim não me basto.

Exposição: Urban Manners 2 - Sesc Pompéia, abril 2010
artístas: Thukral & Tagram (Índia)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Meu lugar

Do alto da estrada escura, os pontinhos de luz humana... emanadas da cidade grande. Onde é o meu lugar? Eu te pergunto poeta e eu mesmo respondo, porque também sei sentir. Mas na verdade não sei ouvir meu coração, por isso fico a perguntar: Onde é meu lugar?

Meus olhos lacrimejam diante do adeus, mesmo sabendo que logo voltarei. Em nenhum recinto há tanto ar puro e beleza nas vestimentas das plantas, não há mistério cotidiano, só as indagações do ser. Mas quando chegar eu saberei que lá também é meu lugar. E se não souber? Só a ti posso perguntar.

E eu sei que no fundo eu finjo duvidar - no fundo eu finjo muitas coisas - porque eu sei que por mais viagens que meus pés façam, por mais dias que eu fique ausente, somente em ti poeta é o meu lugar, somente em ti.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A minha Velhinha

Um doce. Essa era a definição mais apropriada para a minha Velhinha. Ô gente, nunca se viu na terra pessoa mais bem humorada. A velha acordava feliz e dormia sorrindo. E quando alguém lhe fazia um desagrado, é claro, ela ficava triste, mas jamais com raiva.

Tinha que ver aos domingos, a família toda reunida na casa dela, era gente jogada no sofá, nos quartos, na cozinha, na varanda...Também, o que era de filho, neto, cunhado, namorados das netas, namoradas dos netos, amigos das família, cachorro, primo distante, primo do genro, coletivo.

As tias na cozinha pra fazer os quilos de macarrão, a maionese e o frango assado. Delícia. Os tios na varanda tomando cerveja e dando risada. As crianças na praça brincando. Volte e meia surgia um arrancarrabo e as mães iam furiosas bater nos filhos, mas a velhinha não deixava. Se colocava em frente e os danados todos rindo debaixo da saia dela. Eu já me livrei de várias surras assim. Os aborrecentes ficavam na sala vendo tv, entediados com o programa de família ou então jogando algum vídeo. As primas aproveitavam para fofocar nos quartos, fazendo intrigas. Sem contar o cachorro, vira-lata que só. Quando não fazia bagunda, era ele a própria bagunça.

O Vô ficava só olhando, rindo e chamando atenção em caso de extrema necessidade. "Ô baianada", ele dizia.

Era sempre muito assim, era tudo muito legal. Até que as crianças foram crescendo, alguns foram dando outras prioridades na vida, outros se separando, outras pessoas de afastando, mudando de cidade ou até sei lá o que, e as vidas foram morrendo. E o que sobrou?




Sabe, ontem eu sonhei com a velhinha. Ela estava toda de branco, linda, rindo com um pano branco na mão e desse pano branco saíam coisas bonitas e coloridas. Ela me disse pra não me preocupar, que daquele pano branco só iriam sair coisas boas, para nós.


Assim como eu acredito no sorriso de cada dia, eu acredito na minha Velhinha.

Saudades (L)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Thoughts

Não cabem pronomes possessivos em minha sentença, nem mesmo "I me mine".


Música: I me mine, Beatles, Let it be, 1970